terça-feira, 3 de setembro de 2013

Há, claramente, inúmeras outras coisas a serem ditas sobre o fato, mas nos reteremos aqui na reprodução da matéria e na certeza de que, no fim, Epicuro prevalecerá.

Retirado do suplemento Comida do jornal Folha de S. Paulo:

Esqueça a ideia de que a religião ou a guerra impediriam o sucesso de uma cervejaria libanesa.
É verdade que muitos muçulmanos são abstêmios, mas muita gente no Oriente Médio adora beber, especialmente no Líbano, onde a pluralidade religiosa inclui uma próspera população cristã. Além disso, as pessoas recorrem ao álcool em tempos difíceis, disse Mazen Hajjar, fundador da 961 Beer, uma raríssima microcervejaria do Oriente Médio.
O problema, segundo Hajjar, é que há 80 anos o Líbano "bebe cervejas leves e efervescentes". "Eu queria produzir uma cerveja de verdade." Sua empresa produz uma bebida que foi eleita no ano passado a melhor lager no Prêmio Internacional da Cerveja de Hong Kong. Outros produtos incluem uma red ale, uma pale ale, uma stout, uma witbier e, a partir deste verão boreal, uma India pale ale.
atrativa cerveja 961
A empresa vendeu o equivalente a 200 mil engradados no ano passado e tem a expectativa de deixar de ser deficitária neste ano.
Não é pouca coisa, levando-se em conta que a 961 começou depois da guerra de 2006 entre Líbano e Israel, que a economia ainda não se recuperou completamente da guerra civil de 15 anos que terminou em 1990 e que agora o conflito na Síria está transbordando para o Líbano.
"É notável que Mazen tenha sido capaz de montar um negócio naquele caos", disse Steve Hindy, ex-correspondente da Associated Press em Beirute e também fundador de uma cervejaria.
Hajjar teve a ideia de criar a 961 em 2005, após conhecer por acaso Henrik Haagen, empresário dinamarquês de férias em Beirute. Na cozinha do seu apartamento em Beirute, às vezes com mísseis caindo nos arredores, Hajjar começou a fabricar baldes de cerveja. As primeiras levas eram terríveis -um chorume verde e gasoso, segundo ele. Mas ele continuou tentando melhorar.
Hajjar e Haagen criaram uma microcervejaria, montando um pequeno espaço fora da cidade. Depois a empresa alugou um espaço para um pub, que se chamaria 961 Beer, em alusão ao código telefônico internacional do Líbano. Os funcionários mantinham um ritmo frenético tocando os dois negócios. "Era uma loucura", disse Hajjar. "Simplesmente não dava para continuar desse jeito."
Em 2009, Hajjar decidiu fechar até encontrar uma maneira de acompanhar a demanda. Nessa fase, Hajjar, Haagen e Thomas Norberg, ex-empresário hoteleiro, captaram dinheiro para se expandir. Uma nova cervejaria foi inaugurada em 2011.
o mundo da voltas...
Resta um problema fundamental: o alto custo de operar no Líbano. Os ingredientes precisam ser importados. A empresa também precisa comprar energia e água no Líbano, onde os preços dos serviços públicos são extremamente altos. As cervejas da fábrica estão disponíveis em países como EUA, Reino Unido, França, Espanha, Síria, Gana e Austrália.

Matéria original: http://www1.folha.uol.com.br/comida/2013/09/1335650-em-meio-ao-caos-da-guerra-microcervejaria-prospera-no-libano.shtml

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

do deslumbre à plenitude: marcas de uma afetação

Começamos bebendo cerveja por n motivos: juventude perdida, pressão dos amigos, anseio por experiências de outros estados de percepção ou ambiente familiar. O fato é que, de uma forma geral, quase não há quem diga que realmente gostou do primeiro gole. Isso, claro, é uma regra, não uma lei. Alguém vai levantar a mão e bradar: “sou cervejeiro desde berço!”. Ok, mas não se considere um padrão. Nem se orgulhe disso, pra falar a verdade...

De qualquer forma, acabamos bebendo e tomando gosto pela coisa. O “amargo” acaba sendo suprimido pelo gelado e esquecido depois da quarta latinha. Acostumamos com a cerveja nossa de sempre-que-possível e nem pensamos mais no gosto, apenas na sensação, no amortecimento da rotina.


Só que um dia, pela “má influência” de um amigo, de um rótulo curioso, de um comentário pego de soslaio, o sujeito cai nas graças de uma cerveja “bem trabalhada”. Quase como uma maldição, o deslumbre -traduzido em “hmmmm”- o leva a um novo universo de possibilidades. Tem início uma saga pessoal de enriquecimento gustativo, de necessidade de superação e descoberta, de alargamento dos rótulos.


 Nessa fase não há ainda um entendimento pleno do que acontece. Nem do que realmente se está fazendo: são apenas rótulos e mais rótulos. Conversa-se com entusiasmo com outras pessoas que também tem a mesma ânsia e vasculha-se internet e empórios atrás de novas informações. Não consegue mais ir pra um bar sem olhar o cardápio e procurar por um rótulo diferente.


Mas daí que esse sentimento impetuoso, vigoroso de busca por novas experiências gustativas, acaba ganhando contornos incômodos. Nem tanto para o indivíduo em si -não a primeira vista, pelo menos-, mas para os que tem de dividir a mesa com ele.


Começam as frustrações e resmungos com cardápios que, de especial, nada tem além de Xingu (mesmo que esta nem tenha ainda sido devidamente degustada). Começam os comentários pouco polidos a respeito do amigo que preferiu uma Itaipava, pois era mais barata que a Heineken. “Beba menos, mas beba melhor, pô!”. Era só uma latinha...


O sujeito, que agora já se considera um entendedor, virou o equivalente ao “enochato”, aquele bebedor de vinho mala que não sabe mais conviver em sociedade quando há uma garrafa da bebida por perto.


Uma torrente de “complexa”, “frutada” e “lupulada” caem boca afora do camarada, ainda que ele não entenda muito bem o que isso quer dizer.


O triste é que, mesmo sem perceber, todos nós já passamos por isso. Às vezes nem é por mal ou presunção, apenas não nos damos conta que a aquisição de um determinado tipo de linguagem, mesmo que rudimentarmente, é um processo individual e os que estão a nossa volta não irão, necessariamente, partilhar do mesmo entendimento -sequer, sabe-se lá, da mesma vontade de entender!


Esse não é, obviamente, um privilégio de quem estimula o próprio paladar. Estudantes em geral partilham desse mal: músicos que falam sobre a improvisação atonal(?) de Miles Davis como se fosse língua corrente. Geógrafos que brigam com as mães quando elas dizem para que tomem cuidado com o sereno. Beletristas que fazem questão de pronunciar letra por letras das palavras, como se fossem alemães. A afetação é generalizada. A aprendizagem é, infelizmente, permeada pelo pedantismo.


Graças a Santo Arnaldo, pelo menos, essa fase costuma passar. Chega o dia em que uma quantidade suficiente de rótulos foi provada, o sujeito se sente confiante, começa a ter a vida permeada pelo (bom) gosto -e não mais necessariamente em função dele- e passa, enfim, a conviver novamente em sociedade.


Sentar com os amigos não é mais motivo para ofensas e pescotapas. O ritual da degustação, de uma forma ou de outra, ainda existe. Às vezes intencionalmente, outras vezes nem tanto. Torna-se mais pessoal, subjetivo e menos aparente.


O gosto pela boa cerveja é permanente, o que não irá impedir, entretanto, de voltar pra casa com aquele fardinho cheio de latas safadas, metalizadas, repletas de DMS e entuxá-las no congelador pra se tornarem, novamente, agradáveis ao cotidiano.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Feliz Natal

Estamos todos espalhados pelo mundo nesse Natal. Eu (Du) e Carol em San Diego, na Califórnia, Tom na Europa (acho que em Londres) e o resto do pessoal em casa no Brasil. Posso dizer que as minhas experiências cervejeiras por aqui tem sido incríveis, principalmente nos últimos dias aqui em San Diego, onde visitamos 5 cervejarias diferentes e aprendemos muito. São elas: Stone (gigantesca e muito cheia), Port/Lost Abbey (mistura de estilos americanos e belgas), Greenflash (pequena, mas sensacional, toda movida a vapor e com um engarrafador que um dia já foi uma metralhadora de derrubar aviões), Alesmith (cervejas sensacionais) e Ballast Point (conseguimos um tour particular muito legal e cervejas muito especiais no bar). O que eu achei mais interessante são os tasting rooms das fabricas, todos oferecendo degustações de todas as cervejas disponíveis por cerca de 1 dólar por um copo de cerca de 120 ml. Desse modo, deu para tomar entre 4 e 9 cervejas em cada cervejaria, permitindo experimentar muitos tipos diferentes. Aqui na Califórnia a cultura cervejeira é muito disseminada, de modo que todos os lugares possuem uma grande variedade de cervejas e que o padrão é muito elevado. Enquanto no Brasil todas as cervejarias precisam produzir uma Pilsen para sobreviver, todas aqui precisam necessariamente de uma IPA. Aos poucos eu vou colocando fotos e comentários mais específicos sobre cada uma das visitas cervejeiras. Aproveitem o Natal!

segunda-feira, 26 de março de 2012

Workshop de produção de cervejas (31/03)



Estão abertas as inscrições para o nosso próximo workshop de produção de cervejas. Venha aprender a fabricar sua cerveja na sua própria casa. Vamos usar um método participativo, no qual todos vão por a mão a na massa nos grãos pra poder aprender de maneira fácil e prática. O workshop será no próximo sábado, 31 de março, às 10h, no sítio Cantos da Mata, em Mogi das Cruzes (somente 50 minutos de São Paulo).

Data: 31 de março de 2012
Horário: 10:00h
Local: Sítio Cantos da Mata – Estrada Santa Rita, 450, Mogi das Cruzes-SP
Inscrições no e-mail: avacafoiprabreja@gmail.com

Investimento: R$120,00
Inclui: Apostila, produção (uma garrafa da cerveja produzida) e alimentação (café da manhã, almoço e beer break)

Conteúdo teórico:
- O que é cerveja
- Classificação das cervejas
- Ingredientes e equipamentos
- Processo de produção

Conteúdo prático:
- Fabricação de cerveja na panela
- Formulação da receita
- Moagem
- Mosturação (cozimento)
- Lavagem e recirculação
- Fervura e lupulagem
- Resfriamento
- Inoculação do fermento
- Fermentação
- Engarrafamento

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Primeiro Workshop!

Olá pessoal!! Para seguir o primeiro post, nada melhor do que o relato do nosso primeiro workshop!! xDD

Em 2011, por conta de alguns trabalhos da faculdade, acabei entrando em contato com o pessoal da Agência Popular Solano Trindade, que é uma agência de fomento à cultura popular, que dá também importância à produção e comercialização como modos de desenvolvimento da economia criativa local. Nosso contato com ele se deu a partir de uma visita ao Banco Comunitário União Sampaio, e durante uma das conversas, o Rafael, nosso anfitrião na data, nos disse que um sonho deles na comunidade era ter uma cervejaria própria, já que eles bebem muita cerveja. Essa foi a deixa pra eu dizer: “Ah, eu faço cerveja em casa!”.

Esse foi o começo das conversas que desembocaram num workshop de produção caseira de cerveja, no Ninho Sansacroma, um espaço que eles estão organizando, como parte da semana de workshps de verão da agência. Isso aconteceu no dia 26 de janeiro, chegamos lá de manhã cedinho para preparar as coisas, e esperar o pessoal aparecer. Infelizmente, a maior parte do pessoal da agência estava ocupando arrumando os materiais de outro evento que tinha acontecido no dia anterior e só puderam chegar de tarde, então começamos o trabalho só com a presença do Rafael, representando a agência.

Fizemos uma pale ale simples, e o pessoal ajudou bastante durante todo o processo. Nossa idéia de workshop é que todo mundo possa participar ativamente da produção, colocando a mão na massa pra poder aprender melhor e ter mais confiança na hora de tentar fazer a própria cerveja em casa. O dia foi cheio de conversas sobre o tema, pra tirar todas as dúvidas e incentivar as pessoas a tentarem sozinhas da próxima vez!

Além disso, pensamos muito juntos sobre a possibilidade de realmente ser implantada uma microcervejaria na região, como um projeto local e para a própria comunidade. Esperamos que essas conversas possam ir em frente, e quem sabe o Campo Limpo será o primeiro bairro de São Paulo a ter a própria cervejaria!!

Bom, entrando em mais detalhes sobre a produção propriamente dita, a cerveja que propusemos para produzir foi uma Pale Ale, já que achamos que é a que mais se aproxima do gosto de um bebedor comum de cerveja, isto é, aquele que está acostumado só com as cervejas comerciais. A receita foi a seguinte:

4 kg Pilsen

0,5 kg Munich

0,5 kg Biscuit

0,2 kg Carapils


20g Magnum (12% a.a) 60 min

20g Tettnang (4,5% a.a) 15 min

20g Saaz (4%a.a) 5 min

Fermento S-33

Fizemos só uma rampa de 60 minutos a 65ºC. Como foi uma cerveja feita "em campo", tivemos que levar todo o nosso equipamento e por isso só tinhamos uma boca de fogão o que fez com que deu um trabalhinho para ficar pondo e tirando as panelas do fogo. A fermentação ocorreu numa sala naquele prédio, embaixo de uma bancada e camuflada com várias coisas, para que ninguém mexesse. Era um pouco abafado, mas acho que a fermentação ocorreu bastante bem. Atingimos a OG calculada pelo Beersmith para uma eficiência de 60% que foi 1,048. A fermentação levou a FG para 1,012, resultando num nível de álcool de 4,69%. O IBU estimado foi 46,4, o que talvez tenha sido um pouco demais.

Ainda não sabemos o resultado do trabalho, já que não conseguimos engarrafar a leva ainda, mas parece promissora! Quando estiver tudo pronto, coloco o relato da degustação aqui também!! ^.~

Aqui vão também algumas fotos!!

Primeiro a moagem!! A gente não usou uma cozinha, mas eles tinham esse espaço com tipo uma copa que deu bastante certo!

Tivemos que levar o fogão, e o pessoal lá arranjou o gás e a água.

Nosso material! Power point, livros, ingredientes!

Lavagem!

Alguns participando...

E outros assistindo!

Fervura!

Passando para o balde, quase terminando!!


Parece promissor??

Logo logo tem mais!!

domingo, 26 de fevereiro de 2012

Primeiro post!!

Sempre que começamos alguma coisa, como um blog, acabamos tendo de esclarecer a razão de existir do mesmo. Somos um grupo de amigos que se conheceu na faculdade e que, desde então, bebe cervejas todas as semanas, numa espécie de confraria que denominamos “Segunda & Drinks”. O nome já sugere muito da nossa história, afinal, eramos simplesmente um grupo de jovens estudantes que gostava de beber todas as segundas-feiras. Até aí, nada de incomum: quem não gostava de beber com os amigos da faculdade?


Acontece que, aos poucos, fomos conhecendo o universo das cervejas e degustando rótulos diferentes toda semana. Três anos depois, já bebemos mais de 400 brejas diferentes, aprendemos a fazer cerveja em casa e nos consideramos capacitados a compartilhar o nosso conhecimento e nossas ideias com todos. Existem diversos blogs e sites que atualmente escrevem sobre cerveja, mas temos certeza de que ainda há espaço para mais gente. A ideia é valorizar a cerveja enquanto uma bebida que todos gostam, em todas as suas variedades e estilos, mas sem mistificá-la. Queremos descomplicar o universo das cervejas e mostrar que todos podem ter acesso à cervejas diferentes e entende-las, além de poder produzir sua própria cerveja em casa.


É claro, sabemos que existem diversos detalhes e nuances na degustação, consumo e produção de cervejas, mas o que queremos é mostrar que nada pode ser mais importante do que o gosto pela cerveja e ser feliz com isso. Não temos diplomas ou cursos sobre o tema, mas somente um conhecimento empírico e isso é o que queremos passar para todos. Claro, lemos livros e páginas e mais páginas sobre o assunto na internet, mas como dito, tudo o que sabemos começou com o copo na mesa de casa ou do bar. A produção caseira de cerveja aconteceu do mesmo modo: não fizemos nenhum curso avançado, mas compramos os equipamentos e nos aventuramos tentando transformar o grão na nossa bebida favorita. E assim foi dando certo. A cerveja já nos deu coisas demais, como diversão, amizades, viagens inesquecíveis e, por que não, alguma dose de conhecimento. Achamos que está na hora de retribuir e por isso queremos propagar tudo isso para todos. A ideia do blog é essa: mostrar o que a cerveja fez por nós e o que nós estamos fazendo por ela!